Antropofobia judaica e o manifesto à união
3 November 2008 · 6 Comments
«A única vez que os Judeus estiveram unidos foi em vagões para Auchwitz, a caminho da morte»
Confesso que não me recordo se ouvi esta frase antes, mas dei por mim a dizê-la quando percebi que existem judeus que parecem dedicar parte das suas vidas a contribuir para a destruição de algo que deveríamos ter por sagrado: “Klal Israel”, isto é, a concepção de união entre a comunidade judaica universal.
Muitos livros se escreveram sobre o anti-semitismo e as suas origens. Muitas teorias se defenderam para tentar explicar este cancro que continua enraizado na humanidade. Mas poucos perderam tempo em tentar explicar porque existem judeus que dedicam a vida a destruir-se a si mesmo, a sua identidade e a sua ccomunidade.
As “birras internas” são tão velhas como próprio tempo e habitualmente um judeu aproveita os seus ditados para explicar as mesmas:
«É normal vivermos assim, afinal de contas: Dois Judeus, três opiniões»
Mas este ditado famoso que deveria servir para retratar a milenar tradição talmúdica que moldou o povo judeu, serve agora para justificar as cismas e birras dentro deste mesmo povo.
Os Judeus sempre viveram melhor com o facto de serem diferentes dos outros povos que com as próprias diferenças dentro do seu próprio povo. Um exemplo fulcral é o ódio visceral entre os dois maiores movimentos religiosos do leste da Europa no século XVII. Hassidim vs. Mitnagdim, que poderíamos traduzir em português como “os piedosos” versus “os opositores”.
Com a chegada do Baal Shem Tov (Rabino Israel ben Eliezer), emerge na cena judaica do leste da Europa o movimento hassidico, que após a sua integração gradual acaba por se tornar maioritária nesta zona da Europa. Com a evolução de em movimento menos popular mas deveras pragmático e coerente, o Gaon de Vilna (Rabino Eliyahu Kramer) forma o movimento dos Mitnagdim e acabam por censurar as práticas hassidicas. O próprio Gaon de Vilna e os seus seguidores formaram um tribunal de lei judaica (Beth Din) e excomungaram os hassidim do judaísmo.
A amargura e animosidade entre os movimentos foram longe demais quando lutas físicas se travaram em Vilna para obterem a primazia dos referidos movimentos à comunidade judaica local perante a autoridade Russa.
Ainda hoje judeus destes movimentos não rezam nas mesmas sinagogas nem estudam os mesmos sábios e autores. Preferiram ambos ir contra a vontade de D’us e apartarem-se da comunidade, criando divisões e muros de fragmentação que envergonham o nosso povo.
Estou certo que ambos tentaram fazer o que achavam por certo, mas esqueceram-se que a razão e julgamento perfeito residem somente no Eterno. A arrogância com que travaram esta luta levou ambos os movimentos a defender a tese de donos da razão divina e mestres do dogma judaico.
Mais recentemente as correntes ortodoxas e liberais cortaram por completo relações entre si, pelo que é mais comum convidarem-se líderes de outras religiões para diálogos inter-religiosos, que para eventos meramente judaicos em que todos os movimentos marcam presença e dialoguam entre si. Chegou-se ao limite de chacotear e defender para si o direito de dizer «Quem é judeu» e «O que é ser Judeu» com uma aversão primária e torpe a um seu semelhante.
Mas a forma mais perigosa de destruição da tal comunidade judaica universal é a forma como nos apartamos da mesma sem darmos por isso. A forma como caímos nas malhas da tão afamada “lashon hará” * faz com que plantemos ícones do mal na nossa própria casa. É comum que achemos difícil colocar os tefilin todos os dias de manhã para nos conectarmos com D’us, mas conseguimos facilmente “conectarmo-nos” com um amigo para discutir a última birra na sinagoga ou no clube judaico. E sem achar que com isso não estejamos a contribuir para nos destruir, continuamos a fazê-lo até se tornar um costume.
Os sábios que do Pirkê Avot (Ética dos Pais) fizeram questão de focar os perigos da crítica e do apartamento da comunidade, certamente cientes dos males que constituem para o Povo de Israel:
(…) Hilel disse: Não te separes da comunidade; não te sintas seguro de ti mesmo até o dia de tua morte; não condenes a teu próximo até ter estado em seu lugar (…) Pirkê Avot 2:4
É um fenómeno pouco estudado esta auto-flagelação com que “brindamos” o nosso judaísmo, mas talvez resida aí esta aversão ao ser judeu e à comunidade judaica, porque definitivamente, isto não é judaico.
É óbvio que é um mal universal e não exclusivamente judaico! Mas a nós foi-nos confiada a aliança de sermos como sacerdotes entre as nações. Quando deixamos de fazer a nossa função deixamos de ser exemplo e passamos de universais a misantropos.
Mas quem sou eu? Estarei também eu a ser moralista? Estarei também eu a querer ensinar os judeus a serem judeus? Estarei eu também a fragmentar com a auto-critica? Estarei eu também a ser profeta da desgraça?
Não sei! Mas se as perguntas constantes moldaram o Talmud e o nosso povo, prefiro ser vexado com as respostas a ser refreado pela passividade. Afinal de contas ser obstinado é também uma virtude quando defendemos os valores éticos e morais do judaísmo e como o Rambam dizia:
“O risco de uma má decisão é preferível ao terror da indecisão”
—
Glossário:
Lashon Hará – Expressão hebraica que literalmente quer dizer língua ferina ou que fere. o mesmo que “má língua”, “mexerico”, “fofoca” ou “bisbilhotice”. As regras éticas do judaísmo estabelecem no Talmud fortes restrições contra a má língua: não se podem proferir afirmações depreciativas ou difamatórias sobre quem quer que seja, quer estas sejam verdadeiras ou falsas; não se pode dar a entender afirmações depreciativas ou difamatórias; não se pode nunca dar ouvidos a afirmações depreciativas ou difamatórias contra terceiros. Segundo algumas interpretações rabínicas, estas regras derivam da importância dada às palavras como forças criadoras e percursoras da acção. Assim como palavras positivas geram acções positivas, também as palavras negativas darão origem a actos negativos. (este glossário foi retirado do blog Rua da Judiaria)
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Peruca Palin!
29 October 2008 · 3 Comments
Não se supreendam se encontrarem pelo bairro judeu de Brooklin (New York), muitas mulheres haredi (ultra-ortodoxas) com um penteado igualzinho ao de Sarah Palin. Isto porque uma empresa de perucas local diz que é o último grito na moda feminina das judias da vertente mais ortodoxa ashkenazita.
O dono da “Georgie Wigs” diz que já vendeu pelo menos 50 (!) perucas com o “penteado Palin” desde que a governadora do Alaska se juntou a McCain na corrida à Casa Branca.
«É um penteado conservador, mas ao mesmo tempo ‘fashion’» diz Shlomo Klein «e é também muito versátil, pode-se usar a popa para a direita, para a esqueda, mais para cima ou para baixo»
A empresa de Klein destina-se quase exclusivamente a judias ultra-ortodoxas, que depois de casadas tapam o seu cabelo em público. Este não estranha o facto da fervorosa cristã ser agora modelo de imagem capilar às suas clientes e fez questão de notar que «ela é pró-Israel!»
Anteriormente as perucas “Hilary Clinton” e “Jennifer Aniston” eram as mais vendidas, mas foram destronadas pelo fenómeno Palin. Uma peruca destas, com cabelo verdadeiro ronda os 695 dolares e Klein revela que adicionou uma nova peruca no catálogo, o da Sra. Beckham (Posh Spice). «Tentamos estar sempre na moda»
Resta-me dizer: Oy Vey!!!
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Gente de fé
16 October 2008 · 1 Comment
Os recentes debates políticos mostraram muita gente de fé. Ao contrário do que se pensa, existem em Portugal multidões capazes de lutar com paixão por questões de princípio, no aborto, divórcio ou homossexualidade. De ambos os lados do debate.
Um militante do PCP ou Bloco de Esquerda é, em geral, uma pessoa de fé sólida, que apregoa fervorosamente os seus dogmas, cumpre ritos e respeita os seus mestres. Diz-se ateu e as suas posições são largamente opostas às de cristãos ou muçulmanos, mas o estilo é idêntico. Pode sentir isto como um insulto, mas é uma pessoa devota.
A cultura dominante menospreza a fé, considerada tacanha, boçal, supersticiosa. Compreende-se, pois a História mostra muitos fanatismos destrutivos. Isso aliás é já evidente nos actuais confrontos, onde os bem-intencionados activistas pretendem derrubar alegremente as regras básicas da família com consequências profundas que nem sequer entendem.
Tal como os seus igualmente bem-intencionados avós, apaixonados pela revolução proletária, criaram as maiores catástrofes do século passado. Mas as grandes mudanças da Humanidade, boas como más, só foram possíveis com pessoas de convicções fortes.
Por isso os actuais militantes dos movimentos contra a família, mesmo enganados, são pessoalmente muito melhores que tantos políticos do bloco central que, cínicos, interesseiros e desiludidos, apenas se excitam com interesses mesquinhos. Estes são mais sensatos, mas não fazem nem bem nem mal por falta de ânimo. Qualquer que seja a sua orientação, a fé é a grande força da humanidade.
in “Destak” 16 de Outubro de 2008
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Obama ou McCain?
16 October 2008 · 1 Comment
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Então até p’ró ano…
16 October 2008 · Leave a Comment

Nesta foto de Israel Bardugo, podem-se ver os Judeus de Kinshasa, no Congo, a rezar o serviço nocturno de Arvit logo após o final do Yom Kipur.
Uma imagem semelhante à de todas as outras sinagogas em todo mundo, apesar da piada clássica sobre as sinagogas reformistas (¹). A grande diferença será que nesta sinagoga, como todas as do movimento Chabad-Lubavitch, os congregantes não tiveram de pagar bilhete para participar nos serviços religiosos, ao contrário da grande maioria nos Estados Unidos e Europa.
Ninguém sabe ao certo como começou esta “moda” de cobrar bilhetes para os Yamim Noraim (²), mas os responsáveis deste movimento hassidico tem a explicação para que não se pague. É simples, um Judeu não deve pagar para rezar, afinal de contas é o seu papel! Um Judeu “pertence” à sinagoga durante estes dias, seja qual for a afiliação ou condição social.
Há quem diga que a “moda” de cobrar bilhetes nestes dias se deve ao facto deste ser o único dia que a grande maioria da comunidade judaica global vai à sinagoga. Uma vez que não tem a “oportunidade” de fazer tzedakah (³) noutra altura, criou-se esta forma de dar este privilégio aos Judeus mais “baldas” da sinagoga.
Será que a moda pega em Lisboa? Eu, confesso que ouvi por trás de mim alguém dizer no fim do serviço “Então até p’ro ano”.
PS: Na brilhante série de Larry David “Curb your Enthusiasm”, fizeram uma paródia sobre a dinâmica da venda de bilhetes para Yamim Noraim. O movimento Chabad-Lubavitch aproveitou a deixa. Assistam aqui
——
(¹) A piada reza assim: “Que diz à porta de um templo reformista nos Yamim Noraim?” Resposta: “Fechado para férias”
(Os Judeus reformistas costumam chamar as sinagogas de templo)
(²) ‘Grandes Festas’ ou literalmente ‘Dias de Temor’
(Yom Kippur e Rosh Hashaná)
(³) contribuição monetária para caridade/justiça
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O fim do capitalismo?
9 October 2008 · 3 Comments
O que faz a força da ideia ocidental é a liberdade, a democracia, os direitos humanos, a igualdade perante a lei “A História é uma coisa desagradável que só acontece aos outros”, escrevia Arnold Toynbee a propósito da convicção britânica, em finais do século XIX, da perenidade do seu próprio império. Esta frase é citada no livro O Mundo pós-Americano de Fareed Zakaria, recentemente editado pela Gradiva, como prelúdio à questão: será que a história também vai acontecer aos Estados Unidos? Ou, dito de outra maneira, será que, tal como o império britânico, a maior e ainda única superpotência mundial também entrou em fase de declínio?
À primeira vista assim parece. A crise alastra perigosamente, a América está ansiosa e com medo, o sistema político demasiado partidarizado e pouco eficaz. A crise tem inevitavelmente repercussões mundiais, a começar pela Europa, onde as soluções ainda são mais complicadas, tendo em conta a dificuldade de adoptar uma política comum. Como era de esperar, de todos os lados surgem profetas da desgraça, anunciando com secreto regozijo não só o fim do “império” americano, mas também a derrocada do “sistema” de uma forma geral, aproveitando para deitar fora o bebé com a água do banho.
Não é esta a opinião de Zakaria. Para ele, não se trata tanto do declínio dos EUA, como da emergência e ascensão de novas potências: a China e a Índia, mas também o Brasil e o México, a Rússia ou a África do Sul. Apesar de estarem ainda muito longe dos EUA, principalmente do ponto de vista político-militar, elas tendem a aproximar-se sobretudo do ponto de vista económico, com taxas de crescimento vertiginosas. Mas o que é talvez uma das argumentações mais interessantes no seu livro é que a ascensão dos “demais” é, em grande parte, uma consequência das ideias e da acção concreta norte-americana, aconselhando os países a abrirem os mercados, a liberalizarem a política, a desenvolverem o comércio e a tecnologia. Aconselhando a não recear a mudança e a aceitar os desafios, divulgaram os segredos do seu próprio sucesso, ajudando-os a tornarem-se bons no jogo do capitalismo. Revelaram pelo seu exemplo a principal chave do sucesso: uma sociedade que premeia a iniciativa, a criatividade e a inovação, só possíveis com uma forte dinâmica civil, um sociedade aberta à imigração, fonte de energia e dinamismo. É por isso que, apesar do sucesso chinês ou indiano, não há um sonho chinês, mas continua a haver um sonho americano.
Mas, tal como os sonhos, as realidades não são imutáveis e a actual crise, de consequências ainda imprevisíveis, está aqui para o lembrar. Será que está em causa a morte do capitalismo, como provocadoramente sugeria o título de uma mesa-redonda da SIC-Notícias esta semana? Como todos os intervenientes referiram, não é disso que se trata. A instabilidade é uma das consequências inevitáveis da liberdade e do desenvolvimento económico. Mas talvez esta crise marque o fim de um ciclo e de um modelo económico assente na completa desregulação dos mercados. Talvez esta crise seja também uma oportunidade para reflectir e corrigir o desajustamento notório entre a universalidade dos mercados, entre um capitalismo mundializado e os instrumentos políticos tradicionais assentes no estreito quadro nacional.
A Europa é um exemplo flagrante desse desajustamento e da incapacidade política de fazer face aos desafios colocados por uma economia cada vez mais interdependente. Só que essa incapacidade agrava dramaticamente os problemas. As sociedades europeias estão desmoralizadas, tendem a fechar-se, alastra o medo e a tentação proteccionista, agravam-se as tensões sociais e culturais, abre-se espaço para os movimentos xenófobos e populistas. A ascensão dos movimentos de extrema-direita em países como a Bélgica, a Dinamarca, ou mais claramente nas recentes eleições austríacas, em que, em conjunto, os dois partidos de extrema-direita obtiveram 29 por cento, representa mais uma revolta contra a impotência política do que uma afinidade ideológica.
Entre Março e Abril de 2008, um estudo mundial levado a cabo em 24 países pelo Pew Research Center revelava que o sentimento antijudaico e anti-islâmico tinha aumentado em grande parte dos países europeus, relativamente a anos anteriores – exceptuando a Grã-Bretanha -, atingindo o seu máximo em Espanha (46 e 52 por cento de opiniões negativas relativamente a judeus e muçulmanos respectivamente). À primeira vista podia-se pensar que esta rejeição tão elevada em Espanha estaria relacionada com o atentado terrorista de Madrid, mas os resultados mostram que há uma relação entre o sentimento antijudaico e anti-islâmico: o público que vê os muçulmanos desfavoravelmente também tende a ver assim os judeus. Mais uma vez, o que isto reflecte é o medo e a tendência de “enconchamento” de sociedades que mais do que nunca necessitariam de se abrir para fazer face aos desafios económicos.
Contrariamente a uma América ainda pujante do ponto de vista demográfico, devido em grande parte à sua capacidade de absorção de estrangeiros e imigrantes, a Europa entrou em espiral negativa, prevendo-se que em 2030 o número de idosos com mais de 65 anos duplique em relação a crianças e jovens com menos de 15. A única forma de evitar esta espiral seria aceitar mais imigrantes, mas as sociedades europeias não parecem ter nem o dinamismo, nem a capacidade de assimilação de pessoas de culturas diferentes.
O que faz a força da ideia ocidental é a liberdade, a democracia, os direitos humanos, a igualdade perante a lei. Nem sempre isso foi uma constante da história, mas esses são, entre outros, os princípios que lhe deram origem e que nos regem hoje.
Mas a história acontece de facto a todos. Os EUA ainda dominam o mundo, mas a unipolaridade está a desaparecer. Isso não é mau em si mesmo. Pelo contrário, pode contribuir para melhor enfrentar os novos desafios. A questão é saber se o Ocidente ainda tem a força e a vontade de se bater por aquilo que faz a sua essência. Como diz Huntington, não por ser universal, mas por ser única.
in “Público” 09 de Outubro de 2008
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Pecado e arrependimento
7 October 2008 · Leave a Comment

Conto de Hassidi de ‘Yom Kippur’
Quando o Rabino Yechiel, neto do Rabino Baruch de Medzibush, era uma criança pequena, perguntou ao seu avô: “Se D’us sabe de tudo, por que Ele chamou Adam, o primeiro homem, após o pecado e disse: ‘Onde estás?’ “
O Rabino Baruch ouviu, mas nada respondeu.
Algum tempo depois, Rabino Baruch perguntou ao pequeno Yechiel: “Queres brincar às escondidas?”
O menino ficou encantado e correu para esconder-se. Esperou e esperou, mas nada do avô aparecer para procurá-lo. Finalmente, desistiu e saiu do esconderijo.
O avô, percebeu ele, estava sentado à sua mesa e não tinha ainda tentado procurá-lo. O pequeno Yechiel começou a chorar. “Avô, esqueceste-te de mim! Nem ao menos tentaste procurar-me!” chorou ele.
“Isto,” disse o Rabino Baruch, “é a resposta à tua pergunta. É claro que D’us sabia onde Adam estava. Adam, entretanto, cometera dois pecados: comer o fruto da árvore e tentar esconder-se do Senhor do Universo. Se D’us não tivesse ido ‘procurar’ Adam, este não teria conseguido sobreviver, por causa da sua vergonha. Ao ‘procurar’ por Adam, Hashem deu-lhe a oportunidade de ter contacto com Ele novamente, para que pudesse uma vez mais ficar face a face com seu Criador.”
Votos de um jejum simples e complacente…
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Casamento ‘Gay’ e Império Galáctico
6 October 2008 · 3 Comments
Hoje a política segue as regras dramáticas dos filmes de aventuras. Como o nosso tempo cresceu à sombra de 007, Indiana Jones, Star Wars e outras ficções, elas modelaram a nossa sensibilidade. Os exemplos poderiam multiplicar-se, mas a tragicomédia que agora se encena em Portugal à volta da “magna” questão do casamento dos homossexuais parece um caso de antologia.
A história começa com um pequeno punhado de jovens e intrépidos heróis que desafia a instituição vetusta e paralisante, atrevidamente lançando uma provocação. Os espectadores sustêm a respiração perante a audácia, intimamente aplaudindo a bravura. Entretanto, naturalmente, a sociedade gorda, preconceituosa e estúpida, guincha de horror face à justa proposta. A decisão, porém, será tomada nos cumes irrespiráveis do poder, onde os heróis não podem entrar, apesar de aí possuírem simpatias. O supremo líder, que no fundo é boa pessoa, até concorda com a causa nobre. Ele sabe que o futuro pertence aos revolucionários e que a sociedade apodrecida vai morrer. Mas para já tem de ceder aos intrincados equilíbrios e acaba por adiar o confronto para a próxima legislatura. Desta vez a justiça foi sufocada mas não percam o segundo episódio.
Nos dias que correm a política tem cada vez menos a ver com os reais problemas, sendo crescentemente um espectáculo de entretenimento. Não admira que adopte as regras do género. Portugal tem gravíssimas dificuldades de vária ordem. Exactamente quais são e como se resolvem é assunto menor da actualidade, entretanto obcecada com temas laterais, fictícios ou simplesmente tontos, mas muito dramáticos: lutas internas do PSD, eleições americanas, um empolado surto criminal e, claro, o casamento dos homossexuais.
Este último é o mais curioso porque, falho de conteúdo, tem os contornos largamente determinados pelas formas cinematográficas. A questão é introduzida como um decisivo combate de civilização a favor da justiça e dos direitos fundamentais. Mas a pose é oca e infundada, pois as mesmas forças políticas têm feito tudo o que podem para desqualificar o casamento como força válida na sociedade. Além disso, se é indispensável regularizar a situação doméstica desses casais, porque não da miríade de outras circunstâncias familiares e relacionais que não possuem cobertura jurídica? Apesar de tudo o número de coabitações de irmãos, tios, sobrinhos ou amigos é maior que a dosgays, para não falar dos casos de poligamia, incesto e pedofilia, que a mesma sociedade (ainda) insiste em repudiar. Porquê esta obsessão com uma situação particular?
O Estado não regula o amor entre pessoas. Se o fizesse teria de criar muitos contratos além do casamento. A lógica da instituição matrimonial vem das implicações estruturais na sociedade da união fecunda entre mulher e homem, incomparáveis com as de qualquer outra. Escamotear isto e tratar o contrato como um direito do amor mútuo é uma tolice.
O enredo baseia-se num silêncio ensurdecedor. Todos os participantes no debate fingem ignorar um facto central, que traz o picante ao drama. A grande maioria da população considera a homossexualidade uma depravação, um acto intrinsecamente desordenado e contrário à natureza. Não se trata de um preconceito, mas de uma opinião válida e legítima a ponderar. E não deve ser confundida com homofobia, que é agressão ou discriminação de pessoas. É possível discordar fortemente da orientação de alguém, tratando-o com respeito e consideração. É isso a democracia e é assim que somos chamados a lidar com fumadores, racistas, poluidores.
Infelizmente não são tratados assim os que se opõem à reforma. No caso dos homossexuais a única atitude admissível parece ser a aceitação do dogma intocável da sua perfeita equivalência com sexualidade normal. Assim, o combate pelo casamento gay representa um teste a esse sacrossanto mandamento da equivalência. Deixa de ser um debate político, para se transformar em cruzada quasi-religiosa. O assunto toma a emoção de Luke Skywalker enfrentando o Império Galáctico.
in “Diário de Noticias” 06 de Outubro de 2008
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Biden vs. Palin
5 October 2008 · 13 Comments

Foi o segundo debate mais visto de sempre com 73 milhões de telespectadores. Destronando o debate entre os principais intervenientes, McCain e Obama, por mais de 20 milhões de pessoas acabou por ser um debate morno, sem “gaffes” e sem grandes motivos para reivindicar vitórias uma vez que não conseguiram ser totalmente frontais e de salientar as soluções fundamentais que ambos defendem.
Mas antes uma introdução:
A escolha de Palin para “vice” republicana, que a principio mostrou ter sido uma jogada de mestre de McCain, foi aos poucos perdendo o brilho, muito por força dos media liberais que exaustivamente a acusaram de falsa moralista, fundamentalista evangélica e ignorante.
Apesar de não transpirar o estigma de 2ª escolha, Palin acabou por ser a surpresa necessária depois de nomes seguros e experientes não se perfilarem como disponíveis, como Joe Lieberman e Condoleezza Rice. Foi o trunfo na manga de McCain e no overall não se pode dizer que os media a tenham destruído, mas de facto tornaram-na mais frágil. Talvez por isso, esta se mostre mais populista e menos popular com tiques que chegam a roçar o parolo e pacóvio, como o sorriso que termina num piscar de olhos para a câmara e um acenar da cabeça vitorioso. Por vezes dei por mim a pensar em Ned Flanders, o beato da série “Simpsons”, pelos gestos quase plagiados. Mas de facto Ned, tal como Palin, é um cidadão exemplar, que paga os impostos, trabalhador, familiar e fervoroso religioso que defende a máxima do dollar “In God we Trust”. Algum problema nisso!?
Se Palin se mostrou frágil na política internacional e ignorante do ponto de vista geográfico, os democratas não podem estar muito à vontade com o seu “vice” Joe Biden. Ao longo dos anos este revelou-se um dos maiores “gaffeiros” da política americana, ao nível o campeão George W. Bush. É conhecido pelas piadas sexistas e racistas que deixam os americanos boquiabertos com a falta de timing e moderação. Na Europa talvez não fosse problema, mas no país que inventou termos como african american e little people, Biden está a um passo do abismo cada vez que abre a boca.
É um homem do aparelho democrático, escolhido cirurgicamente para apoiar Obama devido à sua falta de experiência, que curiosamente, o próprio fez questão de salientar quando ainda era seu adversário nas primárias democráticas.
Estamos então perante a “Energia e Entusiasmo Patriótico” de Palin vs. a “Experiência e Qualificação Internacional” de Biden.
O debate começa com um Biden mais seguro mas sem grandes soluções. A estratégia é ligar o actual presidente com McCain e defende que a vitória deste não vai trazer novidades. Defende a construção de políticas económicas e acusa os republicanos dos aumentos fiscais enumerando os seus maiores erros nesse campo. Foca a importância da classe média e defende a aposta nas energias alternativas.
Palin ainda pouco à vontade, refugiou-se nos exemplos populares da vida familiar e das suas dificuldades diárias. Promete reformas económicas e travar o seu ódio de estimação a nível interno: “A corrupção e ganância de Wall Street”. – que mencionou três vezes durante o debate.
Defende-se com o facto de o próprio Obama apoiar os mesmos aumentos fiscais e promete lutar para eliminar as diferenças na assistência social.
Ambos não apoiam o casamento homossexual. Biden defendeu a união de facto e igualdade fiscal entre “casais do mesmo sexo”. Palin falou em tolerância.
À medida que o debate avança, Palin mostra-se mais confiante e revela o seu sentido prático e real dos problemas de política externa dos Estados Unidos, curiosamente uma dos suas fraquezas.
Enquanto Biden qualifica o Paquistão e o Irão como problemas similares aos quais terão importância idêntica na agenda democrática, Palin defende uma maior atenção ao Irão e faz menção ao seu maior aliado: Israel. Biden começa a tornar-se utópico na defesa do diálogo enquanto Palin salienta que a América não deverá ter diálogo com os seus inimigos e com ditadores. Biden defende uma diplomacia musculada de apoio a Israel e defende o avanço das tropas da NATO no Líbano. Palin por sua vez defende a solução de dois estados (Israel e Palestina) e volta a frisar o apoio a Israel referindo que “não vamos permitir um segundo Holocausto”.
Relativamente ao problema no Darfur concordam na sua totalidade mas perdem pouco tempo a falar do mesmo, principalmente por culpa da moderadora.
Relativamente ao papel que cada um vai ter nas relativas administrações, Biden revela que terá liberdade de opinião sobre todos os assuntos do país enquanto Palin por sua vez irá liderar em certos pontos.
No final dá-se um empate técnico, muito por “culpa” dos intervenientes. Palin não se revelou “parola” e Biden não se revelou sexista. Foram ambos muito correctos e preferiram não enveredar pelo caminho da acusação barata e moralista. Talvez porque ambos tenham “telhados de vidro”… Mas quem não os tem?!
Parabéns pelo nível. Mas o debate foi fraquinho (assim como a minha análise). Mas que fazer quando a matéria prima não é de grande qualidade?!
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